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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Associação filantrópica de São Jerônimo da Serra, fundada há 38 anos, é referência no atendimento de doenças de pele

Como uma divina coincidência, foi durante a Semana Santa, no início dos anos 1970, que o padre diocesano japonês Haruo Sasaki, hoje com 85 anos, se depararia com um morador de São Jerônimo da Serra, vítima de hanseníase, com faixas pelo corpo, numa demonstração concreta da falta de assistência médica para uma doença tão envolta de preconceito e falta de informação. Na cidade a pedido do bispo de Cornélio Procópio para atender a comunidade nos serviços religiosos durante a semana especial, ele não imaginava que aquele encontro ao acaso mudaria a sua história e a de milhares de pessoas. Tocado pelo que viu – e sentiu – começou na cidade um movimento focado inicialmente para atender os hansenianos locais, que numa avaliação inicial chegava a 120. "Vim de uma família onde a hanseníase fazia parte das conversas cotidianas e não tinha aquele pavor da contaminação. O meu avô materno era dentista e prestava atendimentos aos hansenianos que ficavam internados em um leprosário no Japão. E, de certa forma, acho que isso me ajudou a realizar esse trabalho", conta o padre Sasaki, que chegou a cursar a graduação de Serviço Social, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), aos 45 anos, para se preparar melhor para o trabalho que estava se propondo a fazer. 

A iniciativa contou com o apoio de algumas lideranças da cidade, entre elas o médico dermatologista Mauro Filgueiras Mendes, assim como doações substanciais vindas do Japão para custear a construção do prédio ambulatorial em um terreno de 30 alqueires na área rural da cidade. Recém-formado e trabalhando no posto de saúde da cidade, Mendes acabou sendo contagiado pela ideia revolucionária do padre e aceitou a empreitada, tornando-se cofundador da Associação Filantrópica Humanitas, juntamente com o tabelião Edmundo Bragatto, no dia 8 de setembro de 1977. "Natural de Ibiporã, vim para São Jerônimo da Serra em 1974 e, quando pensava em ir estudar em Curitiba, chega o padre Sasaki com essa ideia que mexeu com a vida de todos", lembra Mendes, hoje com 66 anos, que após abraçar o projeto se especializou na área de dermatologia. "Atendemos pessoas extremamente pobres, com problemas graves de pele, como o câncer, que não teriam para onde recorrer se não fosse o trabalho da associação. Oferecemos um serviço fundamental de dermatologia com padrão de universidade", ressalta. Já a dermatologista Lúcia Emiko Imazu atua na entidade há 22 anos: "Eu aprendi muito com esse trabalho. A sensação de gratidão e satisfação é imensa. Além disso, aqui temos uma estrutura que permite um tratamento mais ágil, com a rápida realização de exames clínicos e até microcirurgias. Os pacientes dizem que nunca foram tratados da maneira como fazemos aqui, com tanta atenção e cuidados", destaca. É o caso do comerciante de Uraí Paulo José Pitoli, de 60, que há um ano recebe tratamento para uma úlcera na planta do pé. "Passei por vários médicos, inclusive particulares, e só aqui estou conseguindo resolver o meu problema. Estou praticamente curado e o atendimento é excelente. Eles são muito organizados e atenciosos", elogia. 

MAIS DE 44 MIL ATENDIMENTOS
Desde a sua fundação, a entidade já contabiliza mais de 44 mil prontuários de atendimento. Atualmente, a média mensal de atendimentos gira em torno de 1.200 pacientes, já que o local presta assistência gratuita na área de hanseníase e doenças de pele em geral, englobando quase 80 municípios da região. "Achamos melhor ampliar o foco de atendimento até como uma forma de diminuir o preconceito. Com todas as pessoas misturadas, não haveria o constrangimento de estar aqui", afirma o padre. Mas no começo não foi fácil: dezenas de vezes o padre e a equipe de atendimento tinham que pegar muita estrada de terra em busca dos pacientes, principalmente de hanseníase, que se afastavam da sociedade e nem se quer imaginavam que haveria tratamento para a doença. Em muitos casos, o tratamento era iniciado na própria residência dos pacientes, com a ajuda das irmãs japonesas do Imaculado Coração de Maria, que até hoje colaboram na entidade. "No ano passado, tivemos 33 novos casos de hanseníase atendidos aqui e acredito que, em no máximo 20 anos, conseguiremos acabar com essa doença na nossa região. Espero estar vivo para ver isso acontecer", almeja o padre. "Sempre digo que é importante ter fé e trabalhar. Tudo é fruto de muito trabalho e me sinto em paz pelos rumos do projeto", avalia o padre, que hoje trabalha voluntariamente na associação. 


Sempre em busca de melhorar a qualidade de vida dos pacientes, a entidade há mais de 20 anos disponibiliza extrato líquido de própolis como forma de aumentar a imunidade. O produto, que tem registro no Ministério da Agricultura, envolve a participação de 70 produtores de mel da região e segue rigoroso programa de autocontrole e rastreabilidade da matéria-prima.
Ana Paula Nascimento
Reportagem LocalFolhaWeb

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