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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Pesquisa mapeia saúde dos professores

A saúde dos professores da rede pública estadual não vai nada bem. Esse é o diagnóstico obtido pela primeira fase do estudo Pró-Mestre, desenvolvido pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Há dois anos, a equipe entrevistou 978 professores nos 20 maiores colégios de Londrina. 

As dores crônicas se somam a problemas ainda mais graves como os transtornos psicológicos, incluindo estresse e síndrome do pânico. Alguns ainda relataram serem vítimas de violência física, ameaças e assédio moral. Os pesquisadores iniciam agora a segunda fase da pesquisa, que pretende detectar de forma mais precisa a relação das doenças com o trabalho. 

De acordo professor da UEL e doutor em Saúde Coletiva, Alberto Durán González, 42% dos entrevistados relataram sofrer de dores crônicas, principalmente nas pernas, ombros e costas, resultado do longo tempo que permanecem em pé durante as aulas. "A maioria desses profissionais está na faixa dos 30 aos 49 anos, ou seja, não são pessoas idosas", detalhou. No ano passado, a média de atestados médicos, com períodos de uma semana a 30 dias, chegou a 350 por mês. 

González citou ainda as doenças psicológicas, que resultam em maior tempo de afastamento. "Quando as dores físicas, por exemplo, uma cirurgia pode resolver, mas as doenças da mente são mais complexas de serem resolvidas", comparou. De acordo com dados do Núcleo Regional de Educação (NRE) de Londrina, só no último ano, dos quase 10 mil professores estaduais da região, 400 tiveram de ser afastados e outros 400 remanejados de função. 

Os dados revelam ainda que 22% dos professores sofrem de ansiedade e 15%, de depressão. Outro item preocupante mostra que os profissionais não conseguem se desligar do serviço nem na hora de ir dormir. Do total, 55% relataram possuir distúrbios do sono. Por uma semana, os professores foram monitorados pelo actígrafo, uma espécie de um relógio que registra variações de movimentos do corpo. 

O professor de Biologia, Bruno Ziroldo, de 31 anos, elogiou a pesquisa e disse que os dados fornecem subsídios para administrar melhor as ações. "Pelo actígrafo pude perceber que meu sono é pior em dias que dou aula à noite. Isso indica que tenho que diminuir o ritmo", contou o professor, que dá aula em duas escolas estaduais, duas particulares, além de cursinhos pré-vestibulares. "A profissão é desvalorizada, temos que acumular vários empregos para conseguir pagar as contas. Isso gera o estresse e outras doenças", analisou. 

A doutoranda em Saúde Coletiva, Marcela Campanini, citou casos de professores que tiveram que mudar de casa porque não podiam nem ouvir o sino da escola. "A pressão é muito grande e leva até mesmo à síndrome do pânico. A reabilitação é difícil." A colega de doutorado, Francine Nesello, apontou que o remanejamento, muitas vezes, também ajuda a agravar o caso. "São professores que retornam com a função de fechar o portão da escola, por exemplo. Isso causa uma angústia grande, ele se sente desvalorizado", relatou. 

A reportagem entrou em contato com a chefe do Núcleo Regional de Educação de Londrina, Lúcia Cortez, mas ela estava em viagem e o celular estava desligado. A Secretaria de Estado de Educação (Seed) também não respondeu o contato até o fechamento da edição. 

Os professores que foram entrevistados na primeira fase da pesquisa estão sendo contatados pelos pesquisadores. A intenção é localizar o maior número deles. Segundo González, no entanto, o contato só poderá ser feito 24 meses após a primeira entrevista. Os professores que tiverem dúvidas podem entrar em contato com os pesquisadores do Pró-Mestre pelo telefone (43) 9952-8000.
Celso Felizardo
Reportagem LocalFolhaWeb

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