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quarta-feira, 29 de abril de 2015

João Sutil, de 97 anos, morador de São Jerônimo da Serra, mantém vitalidade física e mental por meio da dança de salão


Como se a vida tivesse aceitado prontamente e de bom grado o seu convite para dançar, João Sutil, 97 anos, segue sua trajetória lépido e feliz, tendo a dança como sua principal parceira nos últimos 16 anos, quando ficou viúvo após mais de 60 anos de casamento. Com boa coordenação motora, além de uma lucidez admirável, o lavrador aposentado não aparenta a sua idade quase centenária (a família suspeita até que ele já tenha 102 anos, mas ainda não conseguiu confirmar, pois o cartório que tinha o seu registro de casamento original, em Marilândia do Sul, pegou fogo). Apesar da idade avançada, que afeta parcialmente a sua audição, ele mora sozinho, em São Jerônimo da Serra, e esbanja disposição. Após a morte da sua esposa – Maria Carmelina de Souza, aos 77 anos - morar no sítio ficou mais complicado e o jeito foi arranjar uma casa na cidade para poder ficar mais perto da filha Maria dos Anjos Sutil, a "Dosanja" como é conhecida, que auxilia mais diretamente nos cuidados com o pai – como lavar e passar a sua roupa. Segundo João Sutil, ele nasceu em "13 de outubro de 1917". 


Mas quem pensa que a solidão flerta com ele está enganado: pé-de-valsa, ele está sempre participando dos bailes da terceira idade da redondeza e das "brincadeiras dançantes" nos barezinhos da cidade. Como o Bar do Chicão, em que um pequeno salão de repente se transforma em uma espaço de convivência e diversão. Viúva também há 16 anos, dona Cecília Lisboa Dias, 77 anos, costuma acompanhar os passos dançantes do colega. Mesmo depois de passar por uma cirurgia na perna, há três anos, ela não se intimida em dançar algumas músicas com o amigo que é primo do seu falecido marido. "E é só amizade", ela garante, embora o Seu João agora tenha fama de ser "namorador". 




Conhecido carinhosamente na cidade também como "João Tatu" ou "Tatuzinho", é difícil encontrar alguém que não tenha algum grau de parentesco com ele ou não o conheça. "A cidade inteira conhece ele, que anda por tudo e conversa com todo mundo", comenta a balconista do bar, que o conhece há 20 anos. "É o nosso ‘Tatuzinho’", diverte-se. 


Aproveitando a máquina de junkebox do bar, mesmo ainda com o sol a pino, em plena segunda-feira, a seleção de música sertaneja e de vanerão é um bom pretexto para demonstrar na prática o seu gosto pela dança, que surgiu na juventude, quando frequentava quermesses e não perdia uma dança, sempre na companhia da esposa falecida. 



Com domínio corporal, fazendo até alguns passos mais elaborados, ele comprova como normalmente consegue dançar até o final do baile, sendo que o seu ritmo preferido é o forró. "Costumo ficar dançando das oito da noite até meia-noite, uma da manhã... Eu não paro e nem fico muito suado. Quem quiser me acompanhar, tem que ter força e pernas fortes", brinca. Aliás, caminhar pela cidade inteira é um dos seus programas favoritos, assim como "prosear". "Paro para falar com todo mundo e às vezes isso me atrasa um pouco", comenta. Festeiro, o consumo de bebida alcoólica - como conhaque, cerveja e batidinha - em pouca quantidade, mas com certa frequência, parece não causar problemas e a família lida com tranquilidade em relação a isso. 



Sempre com o sorriso no rosto e o chapéu preto na cabeça, Seu João vive do jeito que escolheu. "Levo uma vida boa e sou feliz assim. Quem não tem estudo, vive se ‘virando’, mas acho que vivo bem", conta. "Ter estudo no sítio, na minha época, era muito difícil, e as crianças tinham que muito cedo ajudar na roça. Os meus filhos também não tiveram muito estudo, mas estão bem", acrescenta. 



Pai de 12 filhos (dois já falecidos), hoje na cidade conta apenas com a filha do meio, a dona de casa Dosanja, 68 anos, casada há 52 anos com João Ferreira dos Reis, 74 anos. Na cidade, ele também convive com os netos Diogo Sutil, 28 anos, e Jorgiani da Penha Sutil, 27 anos, e dos bisnetos Celine, 9 anos e Luís Gustavo, de 7 meses, filhos de Jorgiani. Ao todo, o número de netos não é muito preciso, mas é certo que tem 20 bisnetos e dois trisnetos. 



Na sua festa de 90 anos foi possível reunir cem parentes mais próximos. Para daqui a dois anos, na sua festa de 100 anos, a expectativa é conseguir reunir mais gente. "Já prometeram matar um boi para a festa. Eu não falo nada. Só aproveito, fico quietinho, e deixo eles fazerem o que quiserem", fala, com os olhos brilhando. 



"Admiro a simpatia do meu avô e o seu longo tempo de vida, cheio de qualidade. Ele foi uma avô muito carinhoso e um bom marido. Acho que vai passar dos 100 anos", almeja o neto Diogo, que é metalúrgico e trabalha meio período em uma propriedade rural de Assaí.



Ao lidar com naturalidade com as perdas de entes queridos que vem vivenciado no decorrer da própria vida, Seu João ainda vê com bom humor os "caminhos de Deus": "Só ‘tá’ sobrando eu...", costuma ironizar, de bem com a vida e temente a Deus.


Ana Paula Nascimento
Reportagem Local

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